11 outubro 2005

Desbocada - uma questão pessoal

Eu sou das que falam de sexo. E confesso que nem tinha percebido que isso podia me diferenciar ou classificar até fazer parte deste blog. Mas, claro, sempre fui uma criatura desligada demais, daquelas que tendem a atribuir ao mundo o que rola dentro do seu pequeno círculo de relacionamentos, e achava que, a essa altura do novo século, tudo era muito natural e adotado por todos.
Mas o que mais me espantou, num primeiro momento, foi descobrir que eu tinha escrito um post sobre sexo. Porque, olha que gozado, para mim aquele era apenas um post sobre mim e sobre como muitas mulheres apreendem o mundo. Uma coisa levou à outra, só isso. Para mim tocar crianças e revistas com os lábios ou gostar de fazer sexo oral eram coisas que tinham a mesma relevância.

Mas nada como se ver pelo olho do outro. Aí a Ione disse: "eu nunca, nunca, falarei de coisas relevantes, nem darei detalhes picantes, nem direi se lambo isso ou aquilo". Então entendi que a questã (como diria a própria moça) não é eu falar sobre, mas o fato que eu falo de sexo na primeira pessoa. Aliás, falo sobre tudo na primeira pessoa, como sabe quem já leu meus outros blogs. Como bem diria Henry, um dos primeiros homens a me ler por dentro, eu sou uma umbiguista.

E aí a moça Ione merecia mesmo um presente meu, se eu fosse possuidora de pilas. Porque ela jogou luz sobre um processo longo e inconsciente - e eu fiquei me conhecendo mais um tantinho. E, caraleo, como eu preciso me conhecer.

Bom, eu também já fui uma moça muito cagalhona, como diria a Ana Paula (num outro post que também me fez pensar um bocado). Ainda mais que eu não tinha belos olhos azuis nem corpinho de atleta - eu era gordinha, normalzinha e desbocada, um verdadeiro susto para os meninos normais. Daí que eu sempre me apaixonasse pelos esquisitos. Mas isso é outra história, outro dia venho aqui para falar de amor.
Mas, voltando ao assunto, aos dezenove eu perdi a virgindade com um moço que amava muito e, numa sorte quase inédita na minha geração, foi lindo. Bom, aí depois deste eu tive uns poucos namorandos e um ou outro ficante. E, aos vinte e quatro, eu casei - e passei um tempão casada.
Tá, Sada, e onde você quer chegar com isso, que mania de reescrever suas memórias... Quero chegar que, quando eu comecei a me separar, lá pelos trinta, eu estava requestionando tudo. Inclusive isso. E me dei conta de que me sentia muito limitada. Era tudo muito fofinho, muito lindo, mas ainda havia uma inquietação, uma curiosidade, uma não-resolvência dentro de mim sobre o assunto.
Como cada mulher é uma mulher, descobri que, para mim, sexo tinha uma importância muito maior do que eu permitia que tivesse na minha vida. Porque tinha aprendido que não era muito decente uma jovem senhora casada da minha idade ter tanto interesse e curiosidade sobre isso - ah, essa "carga de ter de ser de um jeito", como diria a Ana Paula.
Chegou ao cúmulo quando eu fui na terapeuta fazer bioenergética e meu primeiro chacra estava irradiando verde. Tem gente que nem crê nisso, mas enfim, para mim isso é tão ciência quanto a medicina comum. A corzinha normal dele é vermelha, que tem a ver com pulsão e é voltado para as defesas básicas. Verde é a cor do amor incondicional e altruísta. Eu estava, tentando resumir, renunciando à posse e usufruto do meu próprio corpo.

Aí eu fui atrás de conhecer coisas. E conversei com muitas pessoas, de todos os sexos possíveis e fiz perguntas. E li muito na internet, páginas oficiais e blogs, de todos os tipos. Românticos, BDSM, blogs eróticos de casais, blogs de gente inteligente que falava sobre sexo na terceira pessoa e outros na primeira, entusiastas do onanismo, do swing, lésbicas, gays. Todo mundo. Eu li sobre tudo, queria saber o que existia e como tudo repercutia em mim.
E, como dizem, quando o discípulo está pronto os mestres chegam. E chegaram e conheci pessoas e tive experiências significativas. E hoje em dia me sinto muito proprietária desse corpo aqui, sim, senhor.

O curioso é que (como se pode comprovar por uma série de configurações astrológicas que já citei muito e não vou repetir aqui) meu aprendizado se deu muito pela palavra que, para mim, é algo fundamental. E acaba se completando pela palavra, por esse blog. Vejam vocês.

Dei-me conta que, até então, talvez por ter tido tanta sorte nas minhas primeiras experiências, eu só conheci uma dimensão da sexualidade: a emocional, aquela que serve para a gente expressar o quanto ama um moço. Não nego que é o filé. Mas sexo é mais que isso e creio que, nessa vida, a gente merece tudo.
No post da Léli, ela fala sobre a importância de dizer o que se gosta para o moço e tudo. Concordo muito com ela, mas a verdade é que muitas vezes a gente não se permite descobrir o que gosta, porque colocou um rótulo de "não se faz" gigantesco nessa ou naquela área. A umbiguista repete seu slogan: "se conhecer é tudo!"
Descobri que só quando me permiti chamar (e que chamassem) meu próprio sexo por aquela "palavra horrorosa que começa com B" e tantas outras que boas moças não dizem, que eu me apropriei da dimensão erótica dele. Quando deixei de transar e comecei a f*** (mantenho o nível do blog de família, meninas, podem deixar), me tornei mais inteira. Para, claro, descobrir que muita coisa é boa e muita coisa vale, mas nenhuma bagaceirice vale tanto a pena quanto a que é feita com o amor da vida da gente. Porque amor também é carne.

Sei que o post ficou enorme e umbiguista ao extremo. Mas não podia deixar de agradecer ao tanto fazer pensar das gurias. E, de repente, vai que ele é útil para algum umbigo parecido com o meu por aí...

3 Comments:

Blogger Léli said...

Oi Sada, eu concordo com muito do que tu disse sim. E, várias vezes, durante o ato sexual, já me peguei pensando, "Meu Deus, será que isso não é demais!". É já pensei que tava ultrapassando a barreira dos "rótulos" e quando percebia tinha outro. Mas se conhecer realmente é tudo e se permitir também. Quando tu esquece os rótulos e tem alguém especial que te ajuda a perceber que "aquilo" que outros dizem que não é normal é muito bom e é muito normal quando se faz com amor, com tesão, com alguém que se quer de verdade.
Teu pos me ajudou sim e teus comentários também. beijos

11:53 AM  
Anonymous lennon said...

estou de passagem e adorei o post. concordo, rótulos limitam as mentes criativas. O que importa é fazer gostoso com quem amamos, né?!
beijos....

6:01 PM  
Anonymous ro salgueiro said...

Humm... medo de falar de sexo me assusta. Afinal, acredito que falar de sexo é o mínimo que uma mulher pode fazer para começar a gostar de sexo.

11:33 AM  

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