12 janeiro 2006

Por que eu não sou mulherzinha? (especial pra Ione)

No meu prédio há uma maldição.
Explico. No oitavo andar, moram duas meninas gêmeas um pouco mais velhas que eu. Lindas. Um espetáculo. Impecáveis. Longos cabelos loiros absolutamente lisos, sempre brilhantes, sem nenhum fio fora do lugar. O rosto sempre bronzeado, com uma maquiagem levinha, na medida certa, que só realça os traços. O corpo enxutíssimo, e eu sei que uma delas teve neném faz pouco tempo. Ainda assim, nada caiu. Perfumadas, sorridentes, simpáticas. Por que raios tinham que ser simpáticas, senhor? A que tem o neném é casada com um cara que parece o Tiago Lacerda, sem brincadeira, parece mesmo. Uma das duas, que eu não sei qual é, trabalha em uma multinacional.
Pois bem, a maldição é que bastou eu resolver ir à padaria de bermudão, camiseta e chinelo de dedos, bastou eu estar chegando do trabalho com o cabelo sujo, olheiras e um mau-humor do cão, lá estão elas no elevador. E é o que basta para eu me sentir o esculacho em pessoa.
E, tipo, eu sou até que bem mulherzinha. Não saio de casa sem lápis no olho e batom, porque sou muito branca e fico pálida sem. Sou louca por bolsas e sapatos, adoro uma saia rodada, sou viciada em esmaltes, estou sempre de colarzinho e brinco. Mas quando encontro com elas, sempre me vem a pergunta à cabeça, a mesma que a Ione fez, a mesma que a Beth fez: "Por que eu não sou mulherzinha?"
Moral da história, meninas, é que não importa o quão mulherzinha você seja, sempre vai ter alguém mais mulherzinha que você. Porque cada um sabe quanto tempo, dinheiro e disposição quer gastar cuidando do próprio corpo. A minha resolução de começo de ano é começar a cuidar mais do meu.