23 maio 2006

Onde tu guardas o teu preconceito?

De cor, credo, classe social, velado ou aberto, sexual. Seja qual for o tipo de preconceito que uma pessoa possa ter é politicamente INCORRETO. Geralmente quem tem esse sentimento dentro de si quer aboli-lo ou escondê-lo ao máximo para que ninguém perceba a mancha que existe no seu caráter. Isso quando esse ser tem consciência de que essa maneira de ver os outros no mundo não está correta. Não ter isto claro na sua mente, de certa forma, torna o pecado mais leve, mas não menos grave. No entanto, pode parecer brincadeira, mas infelizmente não é, tem gente (que se diz gente) que bota logo para fora seus sentimentos mais vis como o preconceito. Uma das maneiras de expurgar isso e poluir o mundo com pensamentos mesquinhos e egocêntricos são as piadas. Há ainda quem goste de escarrar seus pensamentos sobre como o mundo deveria ser sem negros, gays e sem pobres. Isto tudo sem considerar que depois das grandes navegações os povos e as raças se misturaram de forma que fica difícil dizer QUEM tem uma raça pura. Para aqueles que acreditam que podem ser puros de raça eu lembro que existiu um cara muito carismático que dominou uma nação inteira, cometeu milhares de homicídios e que também se achava melhor do que os outros. Hitler defendeu apaixonadamente sua ideologia de um mundo perfeito, com uma raça perfeita. Aterrorizou os doentes físicos e mentais, perseguiu judeus, ciganos e outros povos e destruiu a Alemanha com as batalhas travadas durante a Segunda Guerra Mundial. Claro que entre suas ações de extremos ele também promoveu coisas que podem ser consideradas boas tais como a luta anti-tabaco, o amor pelas artes e pela música clássica de Wagner. Além disso, era vegetariano. Mas isso não o tornou menos monstruoso quando em sua fúria eliminou os fracos, os doentes, os velhos, os diferentes. Tudo sempre buscando a supremacia da raça Ariana.
No entanto, mesmo depois de todo o estrago que poderia acontecer com um homem querendo impor a sua raça perfeita sobre outras nações e depois de décadas e décadas lutando pela igualdade entre as pessoas, ainda vingam criaturas que apóiam idéias como esta de que uma raça é superior a outra seja pelo tom de pele, pela riqueza ou pela força política.
No Brasil o preconceito é previsto na legislação penal como crime, inafiançável. Junto a isso são realizadas campanhas e as novelas se engajam nesta luta pelo politicamente correto. Mas até que ponto nos atingem estas campanhas? A reflexão é: o que é que eu penso quando ouço o questionamento do título? Qual é a minha resposta? Trouxe aO Diafragma esta discussão por querer compartilhar o sentimento que existe em todos nós, principalmente àquelas que vivem em São Paulo, depois das notícias de violência e das mortes. Aliás, mortes polêmicas e que reforçam a tese de que apesar da legislação proibitiva ao racismo ainda existe muita discriminação por aí, inclusive pelos agentes que deveriam coibir tal crime. Como não reagir de forma indignada se sabemos que grande parte dos jovens mortos por PMs são pobres, negros ou pardos? E ao mesmo tempo como não refletir sobre como batem estes questionamentos na gente? Muito mais que preconceito o medo aterroriza e numa parada de ônibus, numa rua escora o que menos vamos olhar é a cor da pele, vamos sim e nos esquivar de qualquer pessoa que tente uma aproximação. Como viver preconceito e violência sem se deixar contaminar destes males? Como continuar vivendo como gente, rodeada de gente, se o sentimento que temos é de que a guerrilha está cada dia mais perto de nós?
Eu sei que um ser humano desprovido de qualquer tipo de preconceito é uma coisa rara, se é que existente, neste plano terrestre. Mas me considero uma pessoa sem preconceito justamente por admitir que em alguns momentos podem surgir pensamentos discriminatórios, que eu jamais me atrevo a botar para fora e contra os quais eu luto conscientemente. Posso dizer que tendo vindo de uma família muito e muito miscigenada o meu preconceito já foi totalmente colocado no lixo, pelo menos o preconceito de cor, status social, de credo, de gênero e opção sexual. Mas devo confessar que não consigo deixar de ser preconceituosa com gente que é preconceituosa.
Então, “onde você guarda seu preconceito? Não guarde, jogue fora”.